Fonte: Diário de S. Paulo
Data: 06/05

Automedicação afeta o bebê

 

Estudo indica que cerca de 60% das gestantes tomam remédios sem prescrição médica e sem saber que isso pode prejudicar feto

Enjoos, azia, dores de cabeça e no corpo são alguns dos sintomas mais comuns sentidos por boa parte das mulheres durante a gravidez. Para aliviá-los, no entanto, muitas costumam recorrer à automedicação, sem saber que esta é uma prática que ameaça o desenvolvimento do feto e pode trazer complicações, como má-formação cardíaca e gástrica.

Remédios que podem ser comprados sem prescrição médica, como os que contém dipirona e paracetamol, são consumidos sem consulta prévia ao obstetra ou ao ginecologista por 60% das mulheres. É o que aponta pesquisa realizada com 699 gestantes pela Faculdade de Ciência Farmacêuticas de Ribeirão Preto, ligada à Universidade de São Paulo.

De acordo com o estudo, três em cada 10 recorrem a esses medicamentos, ignorantes das possíveis consequências para o bebê. "Os primeiros três meses são os de maior fragilidade, pois o feto pesa, no máximo, 100 gramas e ainda está em divisão celular", explica o ginecologista Aléssio Calil, diretor do Instituto Ciência e Saúde. "Remédios como antibióticos, anti-inflamatórios e anticonvulsivos não podem ser tomados, porque são muito potentes e o tamanho das doses é grande demais, o que pode levar o bebê a nascer sem um dos membros, nos piores casos", afirma.

Entre as mulheres do estudo, foram identificadas mais de 3.200 medicamentos diferentes consumidos nessas condições. No Brasil, eles são divididos em 5 classes de risco, conforme norma da Organização Mundial de Saúde: A, B, C, D e X. As drogas das categorias A e B não comprometem a saúde de gestantes e seus fetos. Nos da classe C, usados por 14% das pesquisadas, não há comprovação clínica de sua segurança. Enquanto na D e X os perigos em gestantes já foram atestados e são contra-indicados. "Nas classes A e B, estão muitas vitaminas receitadas nos primeiros dois meses de gravidez, como as do complexo B, e alguns anticoncepcionais com dosagens hormonais que não são prejudiciais", explica Calil.

Grupos de risco como crianças, idosos e gestantes, geralmente não são usados nos testes das medicações por possuírem sistemas imunológicos naturalmente mais frágeis, segundo a farmacêutica Dafne Estevão da Rede Farmais. "O consumo de alguns medicamentos pode afetar a formação do sistema nervoso do bebê, elevar a frequência cardíaca, acarretar em perda de peso e retardar o parto", alerta.

O problema da automedicação é maior quando a gestante não leva em conta o tamanho da dose em relação às medidas da criança. "Imagine que uma mulher grávida de 60 kg tome um AS de 500 mg, não é mesma coisa para um feto que é bem menor. Se a mulher de 60 kg fuma 1 cigarro, por exemplo, é como se o feto de 1 kg fumasse 60 cigarros", explica Osmar Ribeiro, da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

 
 

 
© 2008 Centro Universitário São Camilo. Todos os direitos reservados