Fonte: Revista Ensino Superior
Data: 01/03


Meus doutores, nossos doutores

 

Novas exigências para garantir ou obter o status de universidade abrem oportunidade para a oferta de pós-graduação stricto sensu, tanto para o público interno, quanto externo

Gabriel Jareta

Dentro de cinco anos, as instituições de ensino superior que requisitarem credenciamento ou recredenciamento para obter, ou conservar, o status acadêmico de universidade deverão ter em funcionamento pelo menos quatro cursos de mestrado e dois cursos de doutorado reconhecidos pelo Ministério da Educação. Se por um lado a exigência deve provocar uma corrida contra o tempo dentro das instituições que ainda não contam com essa oferta de cursos, por outro a necessidade de investimento em pós-graduação e em profissionais com alta qualificação pode abrir espaço para a criação e ampliação de cursos de mestrado e doutorado para atender a essa demanda emergente.

De fato, ao analisar os números da pós-graduação no Brasil, a distância ainda é grande entre a realidade e o que é exigido. Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo no final de 2010 mostra que 43 das 80 universidades do Sudeste não possuem os requisitos mínimos em cursos de pós stricto sensu. "Atualmente, é muito provável que 40% [das universidades brasileiras] não atendam a esse indicador", afirma Celso da Costa Frauches, consultor sênior do Instituto Latino-Americano de Planejamento Institucional (Ilape) e membro da Abmes. De acordo com um recente estudo publicado por Frauches, existem 80.814 doutores atuando em instituições de ensino superior brasileiras para atender às necessidades de 28.940 cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu, o que resulta numa relação de 2,76 doutores por curso. Por isso, ele crê que a necessidade de se adequar à legislação pode aumentar essa proporção. "A decisão do Ministério é indutora para que as instituições saiam da comunidade e implantem mais cursos de pós-graduação", diz.

Altos custos
Ainda que as instituições precisem agir com rapidez para garantir as exigências mínimas da legislação, dois fatores surgem como obstáculo nessa briga contra o relógio: os custos envolvidos na criação e manutenção de um programa de pós-graduação consistente e a distância geográfica dos grandes centros formadores de mestres e doutores.

"São poucas as instituições privadas que podem bancar dois doutorados e quatro mestrados", diz Frauches. Na prática, um doutor pode orientar apenas um grupo pequeno de alunos a cada vez, precisa de um tempo de dedicação maior para pesquisa, precisa produzir e publicar - e os salários são muito superiores aos pagos a um professor especialista, por exemplo. "Os custos operacionais são muito altos. Por outro lado, oferecer um doutorado de prestígio é uma oportunidade de fortalecer a instituição. Aquelas com visão de longo prazo podem apostar nisso", afirma o consultor, que também cita como uma dificuldade a mais a "concorrência" com as universidades públicas em busca dos melhores profissionais.

Além disso, formar um programa de doutorado consistente e bem avaliado leva anos de trabalho em captação de acadêmicos, formação e pesquisa - no mínimo três anos, calcula Frauches. Feito isso, o curso precisa ter uma avaliação mínima para permanecer em funcionamento. "Só como exemplo, hoje há 26 doutorados em direito no Brasil, sendo somente três com conceito seis. A grande maioria tem conceito cinco; é apenas satisfatória", compara.

Formando os próprios
Uma das maiores redes de educação do país, a Kroton Educacional encontra dificuldades para atrair professores com titulação de mestre ou doutor para instituições em regiões fora do Sudeste e do Sul do país. De acordo com Gislaine Moreno, diretora de desenvolvimento institucional do grupo, um exemplo é a Universidade de Cuiabá, que mantém unidades também em outras cidades do Mato Grosso e que neste ano passa a ofertar dois cursos de mestrado.

"É muito mais difícil atrair um professor titulado para lá. A partir de 2011, passaremos a titular nossos próprios professores em algumas áreas", diz. Na opinião dela, é preciso levar em consideração essa dificuldade de estender os mesmos critérios de regulação para todas as regiões. "Há regiões onde simplesmente não há profissionais titulados na quantidade necessária, mas existe uma demanda enorme por cursos superiores. Deixar de ofertá-los significa render-se à carência de profissionais na área e impedir o desenvolvimento de uma região. Um círculo vicioso que os grandes grupos, sobretudo, precisam ajudar a romper", afirma.

Para Gislaine, uma das apostas é incentivar a formação dentro das próprias redes: com isso, um professor de uma faculdade isolada que pertence a um grande grupo pode, por exemplo, cursar um mestrado em uma universidade administrada pela mesma mantenedora.

Dentro das instituições, o aumento no nível das exigências para universidades provoca duas consequências mais perceptíveis: o primeiro é uma pressão natural por parte dos gestores para que o corpo docente invista na própria titulação - em alguns casos, com bolsa para cursos oferecidos pela própria instituição. O segundo efeito é uma sensação de que, ao apertar os cintos, o Ministério da Educação aponta para o aumento da qualidade (ainda que partindo de exigências quantitativas).

"Percebemos que o governo está exigindo muito, mas está começando a separar o joio do trigo", ilustra Vera Lúcia Gouvêa Stivaletti, pró-reitora de graduação da Universidade Metodista de São Paulo.

Para ela, o futuro das universidades será cada vez mais cheio de exigências. "Vão permanecer no mercado aquelas que fizeram o investimento em qualidade", avalia. No caso da Metodista, Vera Lúcia acredita que deve ganhar força o intercâmbio dentro da própria rede mantenedora, que conta com duas universidades e três centros universitários, além de outras faculdades.

Nichos de mercado
Afora a procura por soluções internas, o consultor Celso Frauches sugere que instituições com vocações definidas invistam em cursos voltados para nichos de mercado, como na área de finanças, tecnologia da informação ou saúde. Com isso, não só atendem às normas de regulação como fortalecem a imagem e a expertise para quem procura um curso de graduação.

No caso do Centro Universitário São Camilo, com cursos voltados principalmente para a área da saúde, um programa de mestrado e doutorado em bioética tem atraído docentes em busca de uma qualificação que pode atender a diferentes formações profissionais. "Há um incentivo natural para nossos professores [ingressarem no curso]", afirma o pró-reitor acadêmico do São Camilo, Marcos Frizzarini.

Atualmente, também estão em trâmite de aprovação dois cursos de mestrado profissionalizante, uma aposta do mercado especialmente por parte de instituições especializadas, como é o caso do São Camilo. "Atender a essas resoluções não deixa de ser uma preocupação muito grande, afinal estamos vendo que algumas instituições já estão sendo penalizadas", observa Frizzarini.

 

O que diz a resolução

Além do mínimo de quatro cursos de mestrado e dois de doutorado até 2016, o credenciamento e recredenciamento de universidades, a Resolução nº 3 de 14 de outubro de 2010, do Conselho Nacional de Educação (CNE), faz outras exigências. Entre elas, um terço do corpo docente formado por mestres ou doutores, um terço dos professores em regime integral, Conceito Institucional (CI) e nota no Índice Geral de Cursos (IGC) igual ou superior a 4. A análise do CNE levará em conta 16 parâmetros que envolvem desde a trajetória institucional voltada para pesquisa, ensino e extensão até qualificação dos dirigentes, passando por oferecimento de atividades culturais e incentivo à iniciação científica. A adequação para a oferta de cursos de pós-graduação será em duas etapas: em relação às universidades já estabelecidas, aquelas que ainda não contam com esse mínimo poderão ser recredenciadas, em caráter excepcional, desde que com a condição de oferecer regularmente três cursos de mestrado e um de doutorado até 2013. Em 2016, porém, elas deverão chegar ao mínimo exigido.

 

 

 

MBA em avaliação institucional

O aumento no rigor das exigências para a avaliação de instituições de ensino superior no país está abrindo espaço no mercado para cursos de pós-graduação voltados para a profissionalização da gestão do ensino superior. O exemplo mais recente é do Centro Universitário São Camilo, que abriu vagas para o MBA em Gestão Universitária com Ênfase em Avaliação Institucional. Oferecido a partir de abril de 2011, o curso é pioneiro em abordar o tema da avaliação como preocupação central. "Percebemos a necessidade de profissionalização na gestão das instituições. A questão não é só a avaliação, mas esse é o foco. Estamos estudando também outros cursos para lidar com aspectos específicos da gestão universitária, com marketing e gestão financeira", afirma o pró-reitor acadêmico da instituição, Marcos Frizzarini.

 

 

 

 
 

 
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