Fonte: UOL
Data: 30/08


Pesquisadores descobrem características da depressão psicótica

 

Alteração cerebral pode ser responsável pelo surgimento de alucinações e pela distorção da realidade

Pessoas com depressão muitas vezes apresentam manifestações psicóticas. Apesar de esses casos não serem raros, eles frequentemente são associados a sintomas de outros tipos de depressão, o que dificulta a adoção de tratamentos específicos. Agora, correlacionando dados de neuroimagem e testes clínicos, um grupo de pesquisadores do Departamento de Neurociência e Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), coordenado pela médica Cristina Marta Del Bem, dá os primeiros passos para definir as diferenças clínicas e biológicas entre depressão psicótica e não psicótica.

Durante o estudo, feito com 23 voluntários com depressão psicótica, 25 com depressão não psicótica e 29 saudáveis, os participantes foram submetidos a exames de neuroimagem, a avaliação clínica e a testes de memória verbal e visual. Em um dos experimentos as pessoas tinham de memorizar 15 palavras com significado positivo, negativo ou neutro e, em seguida, identificar, em uma segunda lista, os vocábulos que constavam também na primeira. Outro teste envolvia a identificação de rostos humanos com diferentes expressões, que variavam entre “boas” ou “ruins”.

Os pesquisadores observaram que embora todos os participantes apresentassem o mesmo grau de depressão, os com manifestação psicótica prestaram mais atenção às imagens negativas ou às expressões de tristeza. “Eles não percebiam estímulos positivos que já haviam visto ou acreditavam se lembrar de imagens negativas que, na realidade, não tinham sido mostradas anteriormente. É como se eles apresentassem um viés para o que é ruim”, ressalta Cristina. Os exames físicos mostraram que os voluntários com depressão psicótica apresentaram, ainda, alterações no volume cerebral, notadas principalmente pela diminuição do istmo do giro do cíngulo, uma estrutura que faz parte do sistema límbico e é responsável pelas emoções. Segundo os estudiosos, essa redução diferencia claramente os dois casos de depressão estudados na pesquisa. Além disso, quanto mais grave o caso psicótico, menor era a região.

Os cientistas acreditam que o trabalho possa ajudar a descobrir até que ponto a depressão com psicose pode estar ligada à percepção distorcida de um estímulo externo. “É uma hipótese que estamos levantando. A possibilidade de uma distorção na forma de ver estímulos externos é, a princípio, coerente com a presença de delírios e alucinações”, reforça Cristina.


 
 

 
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